Avanço das mulheres na liderança do governo contrasta com queda na participação feminina na carreira em Tecnologia da Informação
Enquanto o governo federal
comemora avanços na presença feminina na liderança pública, uma área
estratégica da administração segue na contramão dessa tendência: a Tecnologia em
Informação.
Um levantamento inédito do Painel
Estatístico de Pessoal sobre a carreira de Analista em Tecnologia da Informação
(ATI) do Executivo Federal mostra que, nos últimos dois anos, a participação
feminina diminuiu justamente em um momento de expansão da carreira.
Os dados contrastam com o estudo
Perfil das Lideranças no Governo Federal Recorte de Gênero, divulgado pelo
Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos em março de 2026.
Segundo o relatório, as mulheres já ocupam 43% das posições de liderança na
administração pública federal. Na alta liderança, o avanço foi ainda mais expressivo:
a presença feminina passou de 29% em 2022 para 38% em 2026.
Entre mulheres negras e
indígenas, o crescimento também chama atenção. A participação na alta liderança
quase dobrou no período, passando de 7,1% para 12,3%. Mas quando o olhar se
volta para a área responsável por desenvolver, manter e proteger os sistemas
digitais do governo, o cenário muda.
O contraste fica ainda mais
evidente quando se observa a formação acadêmica no país. Na graduação em
tecnologia da informação, a presença feminina também vem crescendo. As
matrículas de mulheres triplicaram em 15 anos e já representam 19% dos
estudantes da área, o maior patamar já registrado, de acordo com o Censo da
Educação Superior 2024.
Apesar desse avanço na formação,
a principal carreira em tecnologia do Executivo Federal segue na direção
oposta. Em dezembro de 2023, dados do Painel Estatístico de Pessoal indicavam
429 analistas de tecnologia da informação ativos no governo federal. Desses, 95
eram mulheres, o equivalente a 22,1% da carreira.
Em março de 2026, o número total de servidores cresceu para 568, impulsionado principalmente pelo Concurso Público Nacional Unificado, que ofertou 300 vagas para a carreira. Mesmo com a maioria dos aprovados não assumindo o cargo, o quadro aumentou significativamente.
O que chama atenção, no entanto,
é a composição de gênero: a participação feminina caiu para 18,7%. Ou seja, a
carreira cresceu, mas ficou proporcionalmente mais masculina.
Segundo o analista de Tecnologia
da Informação do Ministério de Minas e Energia e diretor da Associação Nacional
dos Analistas de Tecnologia da Informação (ANATI), Luiz Alexandre, a tendência
pode se aprofundar se o padrão recente de ingresso continuar.
“A carreira de TI do governo está
crescendo, mas não está ficando mais diversa. Isso é um sinal de alerta para o
futuro da transformação digital do Estado”, afirma.
Poucas, mas mais preparadas e
mais demandadas
Se são minoria na carreira, as
mulheres ATIs aparecem com forte presença em posições de gestão. Dados de março de 2026 do Painel Estatístico
de Pessoal mostram que, das 106 mulheres ativas na carreira, 77% exercem
algum tipo de função comissionada, ou seja, estão em cargos de liderança ou
gestão.
Na chamada Alta Administração
(funções de nível 4 ou superior), o contraste é ainda mais expressivo: cerca de
30% das mulheres ATIs ocupam posições de topo, contra apenas 13% dos homens da
carreira. O nível de qualificação também chama atenção.
As mulheres representam 57% das
tituladas em programas de pós-graduação no Brasil, segundo o Plano Nacional de
Pós-Graduação 2025–2029. No funcionalismo público federal como um todo, elas já
correspondem a 42% dos servidores. Em 2023, as servidoras da carreira tinham o
dobro de pós-graduação em relação aos homens (12% contra 5%).
Os dados indicam que, apesar de
menos numerosas, as mulheres da carreira ATI tendem a apresentar maior
qualificação e maior presença em funções estratégicas da administração pública.
Mulheres negras na TI pública:
apenas 37 em todo o governo federal
O recorte racial evidencia outro
desafio. Entre as 106 mulheres ATIs atualmente na carreira, 69 são brancas, 31
pardas e apenas 6 pretas. Em dois anos, o número de mulheres pretas na carreira
passou de cinco para seis.
No total, apenas 37 mulheres
negras integram toda a carreira ATI do Executivo Federal o equivalente a 6,5%
dos 568 servidores.
Enquanto o estudo do MGI celebra
o crescimento da presença de mulheres negras e indígenas na alta liderança do
governo federal, a área de tecnologia permanece como um dos principais gargalos
de diversidade dentro da administração pública.
“Não é só diversidade. É sobre
como os serviços públicos são desenhados”, alerta Luiz.
A questão vai além da
representatividade
Uma pesquisa do Banco
Interamericano de Desenvolvimento (BID) em parceria com o MGI, publicada em
2025, mostrou que mulheres utilizam serviços públicos digitais em proporção
ligeiramente maior que os homens: 68,4% contra 64,4%.
Grande parte desse uso está
concentrada em áreas como saúde, assistência social e educação. Quando menos de
19% dos profissionais responsáveis por desenvolver esses sistemas são mulheres,
surge um risco importante: o de que serviços amplamente utilizados por elas
sejam projetados sem a perspectiva de quem mais depende deles.
A discussão ganha ainda mais relevância com a expansão do uso de inteligência artificial na gestão pública. Algoritmos aprendem a partir dos dados e das equipes que os desenvolvem. Ambientes pouco diversos podem acabar reproduzindo ou até ampliando desigualdades existentes.
O momento de definir o futuro
da carreira
A carreira de Analista de
Tecnologia da Informação passa atualmente por um momento decisivo.
A Lei nº 14.875/2024 reestruturou
a carreira e abriu caminho para uma nova regulamentação sobre progressão
funcional e promoção, atualmente em elaboração por meio de decreto.
Esse processo pode definir como a
carreira se desenvolverá nos próximos anos incluindo critérios de capacitação,
pós-graduação e avaliação de desempenho.
Especialistas defendem que o
momento também abre espaço para discutir mecanismos que ampliem a diversidade
na área, como programas de mentoria, estratégias de retenção de servidoras e
políticas de desenvolvimento voltadas para mulheres, especialmente mulheres
negras.
Mais do que uma questão de
equidade, o tema dialoga diretamente com a qualidade das políticas públicas
digitais. “Em um governo cada vez mais digital, quem desenvolve os sistemas
também ajuda a definir como o Estado funciona”, finaliza Luiz Alexandre.
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